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The end

Literatura por Renata Barcellos em 2018-08-12 08:44:04

Fui ontem ao Sesc Copacabama assisti ao monólogo The end com atriz, roteirista e diretora Isabel Cavalcanti cujo texto e atuação é espetacular. Ela dá o tom preciso de todos os dilemas ali narrados. O cenário é constituído de várias gavetas constituindo o que seriam pequenas cômodas e de sacos de terra e cordas amarrados a eles. Ela apresenta-se bem caracterizada para a composição da personagem típica de novelas de Beckett (1906-1989). Segundo ela, trata-se de "mais uma pessoa sem lugar, sem posses (apenas o sapato, cuidado com muito desvelo). Ela é uma imagem metafórica de todos nós".

Quando entramos na sala, a atriz encontrava-se deitada em meio ao cenário. A peça inicia-se com ela dizendo “eu tava quieta no meu canto, tava sossegada, despreocupada...”. Esse fragmento é repetido sempre em que ela relata outro lugar onde foi “viver”. O texto é híbrido: mescla narração “eu sentia um mal-estar e eles diziam que eu estava ótima”; descrição “defunta mais baixa e magra, cidade mudada ....” , canção”sons de mim criança” e argumentação “cidade é campo minado”.  É inspirado não só na obra de um dos fundadores do Teatro do absurdo: Beckett e em uma citação do livro Memórias Póstumas de Brás Cubas, de Machado de Assis (1839-1908). como também em "impressões e escritos meus dos últimos anos. São escritos que falam da sensação de viver numa cidade, num país e num mundo cada vez mais inóspito"- de acordo com Isabel. Verifica-se assim que elabora um texto no qual a personagem defunta narra a sua trajetória entremeadas de reflexões sobre o “ser humano” como em “o que será de mim? Terei de reaprender”. Apresenta-nos  a “invisibilidade” de muitas pessoas e a relação antagônica entre os cidadãos e as suas respectivas cidades. Sobre essas questões e as inspirações levadas a escrever o espetáculo, a atriz destaca:

“A motivação para fazer essa peça veio através do bombeamento de más notícias sobre o Rio de Janeiro, sobre o Brasil e o mundo onde estamos vivendo um crescimento da extrema direita, em que as pessoas menos favorecidas cada vez mais estão sendo jogadas de lado e há uma ambição misturada com a ignorância e intolerância por parte daqueles que detêm o poder. Acredito que fazer uma peça como essa é uma forma de cuidar da cidade porque falo sobre temáticas que estão me afligindo e vejo que há esse sentimento por outras pessoas. Então o palco é o espaço para jogar luz e refletir sobre essas questões”.

Dessa forma, Isabel Cavalcanti proporciona um momento de reflexão sobre uma questão social mundial cada vez mais latente: o sentimento de pertencimento. A personagem, uma mulher sem nome, moradora de diversos lugares (perto do mar, num buraco no alto do morro....), não se encontrou em nenhum. Em busca de paz e de tranquilidade, acaba morando na rua. Em entrevista ao Teatro em Cena, ela explica a inspiração para o nome do espetáculo:

“Somos bombardeados há vários anos com notícias sobre o fim do mundo, mas não queríamos criar um espetáculo com o nome de “The End”. Isso tem a ver com o Beckett porque os personagens vão até o limite de suas estruturas, mas ninguém morre, o Beckett brinca com essa impossibilidade do fim. Então, ao chamar de “The And” optamos por uma ideia de continuação, que na verdade, é um jogo fonético, onde sabemos que soa como “fim”, mas é um fim que continua”.

Sobre as suas inspirações para escrever a peça, Isabel destaca:

“A motivação para fazer essa peça veio através do bombeamento de más notícias sobre o Rio de Janeiro, sobre o Brasil e o mundo onde estamos vivendo um crescimento da extrema direita, em que as pessoas menos favorecidas cada vez mais estão sendo jogadas de lado e há uma ambição misturada com a ignorância e intolerância por parte daqueles que detêm o poder. Acredito que fazer uma peça como essa é uma forma de cuidar da cidade porque falo sobre temáticas que estão me afligindo e vejo que há esse sentimento por outras pessoas. Então o palco é o espaço para jogar luz e refletir sobre essas questões”.

Vale destacar também que além do drama narrado, com falas impactantes como “eu era ainda carne viva”, há um momento no qual surge o humor. A plateia ri quando a personagem faz crítica social ao dizer: “melhor se converter do que ficar no inferno” e “cadeia igual a coração de mãe: sempre cabe mais um”.

Para concluir, cabe ressaltar também que a encenação marca a estreia de Isabel como diretora ao lado do seu marido, o ator Claudio Gabriel (de “Êxtase”). Para ela, exercer múltiplas funções em um mesmo espetáculo é:

“Eu e Cláudio somos casados há 18 anos e é o primeiro trabalho que fazemos juntos. Então essa parceria é até uma forma de nos conhecermos melhor porque é um outro lugar. É a primeira vez que acúmulo muitas funções – ou atuava ou somente dirigia. Já atuei em dramas, mas também em comédias, porém nunca tive coragem de atuar e dirigir. Porque quando se está atuando você não está se vendo e fica focado mais em questões internas. Então é necessário um olhar de fora do diretor. E eu não sou uma diretora que delego funções, gosto de acompanhar e discutir os passos da construção do espetáculo como cenografia, iluminação. Por isso é um desafio atuar em funções diferentes em uma mesma peça”.

O que mais dizer sobre The end? Confiram o belo trabalho de Isabel Cavalcanti!!! Parabéns!!! E paremos para refletir sobre as questões abordadas!!! Afinal, conforme Isabel: " Somos todos nós que estamos falando através da personagem".

SERVIÇO: sexta e sábado, às 19h; dom, às18h. Até 26 de agosto. Sesc Copacabana – Sala Multiuso – Rua Domingos Ferreira, 160 – Copacabana. Tel: 2547-0156.

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