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Além do que os nossos olhos registram

Cultura por Renata Barcellos em 2018-09-02 07:34:47

Além do que os nossos olhos registram é uma peça surpreendente. Já impacta ao entrar no teatro e encontrar aquelas pilhas de livro. Não tinha ido para escrever. Quando avistei todas aquelas obras, um cenário muito familiar, imediatamente, peguei bloco e caneta.Assim que iniciou, as anotações começaram como "a música tem o poder de mexer com os mais profundos sentimentos", "somos o que o mundo pensa que somos"...
Toda a narrativa reflexiva e impactante passe-se no ambiente repleto de pilhas de livros onde a proposta é organizá-los para ser uma biblioteca onde haja troca de livros, sarau e música. Identifiquei-me no ato. Meu universo na atualidade. Nele, as atrizes do elenco (Priscila FantinOlivia Torres e Silvia Pfeifer) cujos papéis são de mãe, filha e avó movimentam-se pelo cenário manuseando-os. Elas representam três gerações de mulheres, marcadas por convenções sociais e pela forma como desempenharam a sua função de filha e/ou de mãe. Delfina (Silvia Pfeifer) é a mulher “a cabeça” livre de preconceitos. Na época, casou-se com um homem negro. Violeta (Priscila Fantin) envolve-se com um homem mais velho e rico, embora amasse um pobre. Mantendo um relacionamento pelo status sociais, típica mulher que vive de aparências. A filha, Sofia, (Olivia Torres), termina o noivado com um rapaz bonito e de família importante. Passa por um dilema sobre como revelar sua própria sexualidade para evitar um casamento arranjado.
A partir disso, a narrativa é construída com momentos de relato cujo tom oscila entre o drama e a comédia. Por diversas vezes, a plateia riu. Segundo Silvia Pfeifer, é uma história “que faz com que, em alguns momentos, as pessoas deem risada, muita risada. Mas também tem outros momentos que a gente percebe que o público está rindo mais de nervoso do que tudo, sabe? Assim como na vida real”. 
O autor Fernando Duarte está de parabéns. Prende a atenção do público. Há sempre um elemento surpresa. De acordo com ele, não interessa que “você, mulher, não tenha muitas amigas, nem more em uma grande metrópole, mas você já deu boas gargalhadas com as amigas falando sobre assuntos corriqueiros, sobre sua vida sexual, já se sentiu insegura em um relacionamento, já falou sobre o tamanho do membro masculino, já contou suas experiências sexuais, já tentou viver novas experiências, já sonhou com um príncipe encantado, já gastou mais do que podia em um sapato ou um vestido dos sonhos”. Vale a pena assistir!!! Trata-se de um belo retrato do que ocorre no seio de muitas famílias não só brasileiras.
Dessa forma, o espetáculo deveria ser assistido por todos (responsáveis, filhos, gestão escolar, docentes...) para refletirem sobre temas como família, amizade, classes sociais, racismo, homofobia e bullying, a criação dos filhos... Hoje, século XXI, 2018, ainda convive-se com dilemas como: casar-se por interesse (um negócio como outrora), manter-se em um relacionamento sem amor e não assumir a opção sexual por temer a não aceitação da família. Quando o público reage ao longo do relato das três mulheres, nos quais elas tiram as máscaras e expõem suas opiniões e verdades, isso representa “a resposta imediata. Percebemos que as pessoas se identificam”, declara Priscila Fantin.
 
Enfim, a peça termina mas o texto de Fernando Duarte "cola" em cada um ali presente dada a sua extrema relevância. É preciso debater sobre os temas tratados. As pessoas precisam conscientizar-se, reconstruir-se. Livrarem-se de preconceitos. Urge mudança nas formas de relacionamento. O respeito é fundamental. Textos como este precisam ser apresentados. As pessoas precisam ser “incomodadas”, convocadas a saírem da zona de conforto”. Se você assistiu e/ou irá e mil questionamentos estão aflorados em sua mente (próprios e/ou de pessoas do convívio), parabéns!!!
Enquanto educadora, posso dizer o quanto urge um diálogo sincero como este ocorrido na ficção. As pessoas precisam se ver (o entendimento do nome da peça " olhos registram"), dialogar, respeitarem as escolhas e assumirem-nas além de seu papel naquela instituição família. Destaco um fragmento da fala da Silvia Pfeifer ao se reportar à filha: "abra o coração, ouça a sua filha e aceite-a". Para finalizar, parabéns ao diretor Fernando Philbert e às atrizes pela bela atuação. Adorei ver Silvia Pfeifer atuando no teatro.         
 
Serviço
Teatro Fashion Mall
Estrada da Gávea, 899, São Conrado, sala 213 Rio de Janeiro
Sexta e sábado 21h, domingo 20h.

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