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Museu Nacional

Cultura por em 2018-09-05 15:39:50

Museu Nacional


Por Orlando Torquato Sampaio da Silva


Em primeiro lugar, registro minha profunda solidariedade com os colegas do Museu Nacional em face da tragédia do incêndio que destruiu seu locus de trabalho. Como brasileiro e como antropólogo estou sentindo um sentimento de tristeza, que vem associado à minha revolta e ao meu protesto contra tanta incompetência, despreparo, desonestidade e alienação de administradores deste país, principalmente os responsáveis pelas áreas de educação, ciências e cultura, que, voluntaria ou involuntariamente, mas, de qualquer maneira, de forma irresponsável, deixaram que fossem criadas as condições para que fosse destruído, em horas, esse patrimônio histórico, científico e cultural do povo brasileiro, que era (é) o Museu Nacional.

As áreas de História, Etnologia, Arqueologia, Linguística, Antropologia Biológica, mas, também, as de Paleontologia e Geologia do Museu constituíram significativos e importantíssimos acervos, com material coletado mediante a realização de pesquisas científicas rigorosas levadas a efeito por equipes de reconhecido preparo, para a produção sistemática de saberes específicos nesses campos; patrimônio que foi destruído irreparavelmente.

Em minha área, a da antropologia social e cultural, atuaram no Museu Nacional alguns dos mais importantes pesquisadores e professores, que labutaram uns e labutam outros na Universidade Brasileira. Heloísa Alberto Torres, Charles Wagley, Eduardo Galvão, Roberto Cardoso de Oliveira e David Maybury-Lewis são alguns dos destacados antropólogos que enriqueceram a instituição com seus saberes, ensino e pesquisas. Charles Wagley, na passagem da década de 30 para a de 40, jovem antropólogo norte-americano, associou-se ao Museu para a realização de sua pesquisa para o doutorado. Eduardo Galvão, na mesma época, recém-saído do curso de grau médio, ingressou no Museu Nacional, onde iniciou sua formação antropológica. O Museu Nacional, como unidade formal da UFRJ, vem mantendo, desde a segunda década dos anos 50, o PPGAS, pelo qual têm passado, em sua formação, antropólogos brasileiros dos mais expressivos, entre os quais: Roque de Barros Laraia, Roberto da Matta, Edson Soares Diniz, Alcida Rita Ramos, Júlio César Melatti, Sílvio Coelho dos Santos, Cecília Vieira Helm, Eduardo Viveiros de Castro, Isidoro Alves (alguns meus diletos amigos) e muitos outros. Roberto Cardoso de Oliveira e David Maybury-Lewis estiveram entre os primeiros mestres no PPGAS.

Desde a década de 50, eu me interessei pelo Museu Nacional, o que decorreu de minha convivência com Eduardo Galvão e com Edson Diniz no Museu Paraense “Emílio Goeldi” e, da leitura de textos antropológicos ali produzidos. Em 1959, visitei o Museu e lá encontrei vários daqueles colegas acima referidos cursando o programa e tendo como seus professores, entre outros, os dois colegas acima referidos. Ao longo da vida, sempre que ia ao Rio de Janeiro, procurava visitar a notável instituição de pesquisa e ensino, onde fiz pesquisa em sua riquíssima biblioteca de antropologia (onde se encontram alguns dos meus livros publicados).

Com a tragédia do incêndio, tornaram-se irrecuperáveis acervos acumulados mediante décadas de trabalho de pesquisas de campo, de coletas de material, de análises, de interpretações e descrições dos mesmos, e de conservação, em um imenso serviço prestado à ciência brasileira e mundial, com a formação de saberes e na constituição de conhecimentos sobre a para o povo brasileiro e para a academia. Em um esforço reconstrutivo e cognitivo, professores e pesquisadores do MN, a partir de agora, trabalharão com suas memórias, com seus testemunhos, com seus depoimentos, com o material específico publicado, com seus cadernos de campo, com fotografias etc. na reconstrução, dificílima e materialmente impossível, do passado. Vale a pena tentar. E recomeçar a faina das pesquisas e do ensino, pois ela é revitalizadora. Das cinzas algo alçará vôo para a vida!

Orlando Sampaio Silva


Sobre o autor:

Orlando Sampaio Silva nasceu a 24/01/1932, em Bragança, PA. Bacharel em Direito, advogado, antropólogo; professor titular (Antropologia) da Universidade Federal do Pará; mestre e doutor em Ciências Sociais (Antropologia); inscrito na Ordem dos Advogados do Brasil/SP; sócio efetivo da Associação Brasileira de Antropologia; filiado ao Sindicado dos Sociólogos de São Paulo; Membro Emérito da Academia Paraense de Ciências; sócio da Sociedade Brasileira para o Progresso das Ciências; associado da União Brasileira de Escritores/SP e sócio correspondente da União Brasileira de Escritotes/RJ; membro da Associação Internacional de Lusitanistas; Acadêmico Titular da Confraria Brasileira de Cultura, Cadeira Perpétua Nº 12 (Patronímica em seu nome). Integra diversas Antologias e Coletâneas de Poesias e de Contos, entre as quais: “Antologia Paulista de Poesia Contemporânea – Além da Terra, Além do Céu”, Chiado Ed., Lisboa-São Paulo, 2015; “Coletânea Sem Fronteiras pelo Mundo...”, Ed. Rêde Sem Fronteiras, Rio de Janeiro, 2016; é autor de diversos livros de Antropologia. Para contato: osavlis@gmail.com

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