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Camille Claudel: uma mulher

Cultura por Renata Barcellos em 2018-11-03 06:30:31

Ontem, tive o imenso prazer de assistir à peça Camille Claudel: uma mulher com a espetacular atuação de Sandra Calaça. Como professora de Francês. Estudei na época da graduação, na UFF, sobre ela e a sua relação com Rodin. Nas idas a Paris, fui aos museus.... Sempre a história da escultora tocou-me profundamente pelos conflitos: rejeição da mãe, machismo, relação com Rodin de amor e ódio, internação... Ler e ou ouvir sobre sua trajetória é uma lição de vida. E fica-nos a impressão de que a artista “gênio” veio ao mundo para deixar-nos seu legado e destinada ao sofrimento em demasia. Para quem é do Espiritismo, compreensível.

O elenco do “ESPETÁCULO” é composto por três atores: Sandra Calaça, Millor e Clara Melo. No início, ao entrar e vê-los já no cenário ao centro do porão do Laura Alvin (com barro, material de trabalho, mala, bancos, livro, taças, bacia, folhas de papel, ovos, batatas...), supus a menina ser sua filha. O que Sandra revela ao final, no momento dos agradecimentos e ele, filho de coração. Também bela atuação. Segundo ela, a filha, Clara Melo, de 5 anos, é “uma menina que já começa a olhar o mundo desta forma tão transformadora, questionadora. Desde 2 anos ela diz que vai ser artista". Talento tem. Boa sorte, Clara!!! Cabe dizer que, ao término, a atriz deu uma lição de vida ao agradecer à presença de todos, aos amigos que auxiliam para a apresentação acontecer e ao revelar o preparo do caldo ofertado antes da entrada. De acordo com ela, “acordo de manhã bem cedo, higienizo tudo, penso em cada um que poderá estar presente... feito com muito amor”. Muito obrigada pelo carinho. Todos na fila estavam elogiando o gesto e também o sabor.

Ao longo da narrativa – descrição, somos transportados no tempo. A plateia passa por volta de uma hora e vinte, sem sentir de tão imersa no drama, na presença “viva” do “gênuo” das artes, “incorporada” na atriz que diz “estava Camille em mim”.  Melhor diríamos “está a cada apresentação”, pelo fato de a atuação da atriz imprimir a carga dramática necessária para vivenciar momentos difíceis da trajetória de Camille Claudel como com a mãe, Rodin e no centro psiquiátrico.  Vale destacar o uso de diferentes recursos como áudio, música, Xerox e projeção. No início, a atriz Sandra diz que já está em cartaz há 10 anos. Mas com o nascimento de Clara, como mãe, mais a relação conflituosa da escultura com a mãe tocou-a: “mamãe queria um menino. Não quis me aceitar”. Isso fez com que “ o texto fosse revisitado, móveis mudassem de lugar, história ganhou cor. Melhor fase quando se tem filhos... Quando Clara nasceu, eu dizia é a mamãe. Nós nos encontramos ou melhor nos reencontramos.. Quando se tem uma filha, o feminino grita”, declara emocionada. E, em seguida, o áudio com o relato da sobrinha neta que encontrou cartas da tia Camille e declara seu pesar por não ter feito nada pela tia em vida.

No texto, podemos destacar figuras de linguagens responsáveis pela composição do pensamento de Camille Cladel. Verificamos as seguintes:

- metáforas “ esmagada em vida”, “fantasma escuro”...

- comparação “quando Clara nasceu...”futuro como abismo”., “parecia vidente prevendo o futuro assustador”...

- antítese: “ela vai apostar tudo em Rodin e vai perder tudo”...

- sinestesia: “posso ouvir o som das botas encharcadas sobre o barro”, “coloque sua mão sobre o meu ventre, me beija”...

Utiliza a citação ao longo do texto: Rimbaud: “O poeta se faz vidente por meio de um longo, imenso e refletido desregramento de todos os sentidos. Todas as formas de amor, de sentimento, de loucura; ele procura ele mesmo, ele esgota nele todos os venenos, para só guardar as quintessências”. E questionamentos: “por que entre nós duas este ódio?”, “por que ela me detesta?”...

Enfim, um belo texto e direção também de Sandra Calaça. As partes selecionadas e a forma como foi redigido foram essenciais para a composição e o entendimento do drama vivenciado por Camille Cladudel. Conforme a atriz, diretora e autora da peça, com este espetáculo, “quero falar da luta da mulher por seus direitos. Sou fascinada pela história de Camille Claudel, que era uma artista genial, e, por escolher uma profissão considerada para homens na época, foi calada pela sociedade e por familiares, e castigada com um laudo de louca e perigosa”, descreve Sandra Calaça. “É um tema muito pertinente em momento importante de luta por direitos e conquistas que as mulheres buscam há muitos séculos... Falar sobre a artista Camille Claudel é garantir o direito dado à minha filha em viver como melhor desejar, é poder lutar por muitas mulheres, artistas, visionários, seres humanos que não têm e não tiveram voz, ou que tiveram suas vozes caladas por ameaçar um sistema, uma sociedade ou apenas o grupo familiar”. Vale dizer que também contextualizou para o cenário político atual ao incluir no término da peça “ele não”, “é preciso resistência”...

Vale a pena conferir!!! Parabéns, Sandra pelo belíssimo trabalho. Com certeza, Camille Claudel está sentindo-se feliz e bem representada.

Aos leitores, fica a sugestão de ler sobre a considerada primeira escultora “gênuo” das artes pela inovação de como esculpia e de ir ao seu museu localizado em

 

Um pouco de Camille Claudel para reflexão:

Camille Athanaïse Cécile Cerveaux Prosper (1864-1943), ou Camille Claudel, como ficou conhecida, nasceu em Aisne (França), e cresceu em Villeneuve-sur-Fère.

 

Em 1930 redigiu sua última carta, dirigida ao irmão Paul :

“ Hoje 3 de março é o aniversário de minha internação! Faz 17 anos que Rodin e os marchand de objetos de arte me enviaram para fazer penitência nos asilos. Eles é que mereciam estar nesta prisão, pois eles apoderaram-se da obra de toda minha vida através de B. que conta com sua credulidade e a de mamãe e de Louise. Eles diziam: nós nos servimos de uma alucinada para encontrar nossos temas! É a exploração da mulher o esmagamento da artista de quem se quer expremer sangue! Tudo isto no fundo sai da cabeça diabólica de Rodin. … Em outra reclama da comida e solicita que a mãe lhe envie os seus pedidos e que não gaste dinheiro pagando pelo que ela não consome no asilo. Tem novidades de Paul? De que lado ele está agora? Ainda tem a intenção de me deixar morrer em um asilo de alienados? É bem cruel para mim. Isto não é lugar para mim”

 

Paul, em seus escritos sobre a irmã, descreve o trabalho da artista:

“Da mesma forma que um homem, no campo, se serve de uma árvore ou de um rochedo ao qual seus olhos se prendem, a fim de acompanhá-lo em sua meditação, uma obra de Camille Claudel no meio do apartamento existe unicamente através de suas formas, assim como essas curiosas rochas colecionadas pelos chineses, como um tipo de monumento do pensamento interior, o tufo de um tema proposto a todos os sonhos. Ao passo que um livro, por exemplo, somos obrigados a ir buscá-lo nas prateleiras de nosso armário, uma música, a tocá-la, ao contrário, a peça trabalhada, de metal, ou de pedra, exala de si mesma seu encantamento, e a casa inteira é por ela penetrada”.

Camille culpa incessantemente Rodin por sua internação. Era para ela menos penoso enfrentar a indiferença de Rodin do que o ódio da própria mãe. Para todos os assuntos era ponderada, mas enlouquecia ao ouvir o nome daquele que roubou sua alma/obra. Loucura feminina imponderável, delirante, enfurecida e enlutada até o fim de seus dias, tal qual sua mãe, que não lhe perdoou ser mulher” (Elisabeth de Rocha Miranda – Psicanalista

 

Camille Claudel, A Life:

Dez anos após sua morte, os ossos de Camille foram transferidos para uma vala comum, onde foi misturado com os ossos de pessoas mais pobres. Presa ao solo de onde ela tentou fugir por tanto tempo, Camille nunca mais retornou à sua amada Villeneuve. A negligência de Paul com o túmulo de sua irmã é imperdoável... Enquanto Paul decidiu não se sobrecarregar com os preparativos para o túmulo da irmã, ele fez grandes planos para seu local final de descanso, dando um local exato - em Brangues, sob uma árvore, ao lado de seu neto, e citando cada palavra que estaria na lápide. Hoje, seus fãs prestam homenagens à sua memória em seu túmulo nobre; mas de Camille não há traço sequer. Em Villeneuve, uma placa simples lembra aos visitantes curiosos que Camille Claudel ali viveu, mas seus restos ainda estão no exílio, em algum lugar, alguns passos de distância do lugar que a sequestrou trinta anos antes.

 

SÓ A ARTE E A POESIA CONTAM NA VIDA. TODAS AS CONVENÇÕES DA 
FAMÍLIA, DA SOCIEDADE E DA RELIGIÃO NÃO SÃO MAIS QUE ENGANOS” (CAMILLE CLAUDEL, AOS 18 ANOS)

Vê-se uma sereia, sentada com os joelhos apertados e todo o corpo elevado aos lábios, onde a flauta divina derrama, com o seu agudo fluxo, paixões extra-humanas. Com a garganta insuflada pelo agitar de asas de pombas, do vento das florestas e do furor dos mares, provoca a Musa a dizer-lhe: Tu não és a que canta, tu és o próprio canto no preciso momento em que a escultura é concebida”, escreve o crítico de arte do jornal”.

 

 

Ficha técnica:

 

Concepção, direção e texto: Sandra Calaça
Supervisão do espetáculo: Caique Botkay
Assistente de direção: Maria Rita Rezende
Elenco: Sandra Calaça, Millor e Clara Melo
Direção para pesquisa musical e sonora: Caique Botkay
Pesquisa musical e sonora: Millor e Sandra Calaça
Voz em off e consultora de francês: AnaLu
Direção de voz: Sofia Kern
Direção de movimento: Juliana Manhães
Coreografia sapateado: Jackie Lima
Preparação da atriz mirim: Maria Rita Rezende
Direção técnica: Cristiano Gonçalves
Assistente de palco: Eduardo Apolinário
Cenografia: Mirella Lima
Figurino: Michelly Valentim
Adereço de cabeça: Iolanda Conteville e Michelly Valentim
Bonecos: Arte Andarilha
Iluminação: Cristiano Gonçalves
Caldo de batata: Wanderlucy Bezerra, Luiza Rezende e Lilian Amancai Quero Bem / Gastronomia da família
Técnico de luz: Cristiano Gonçalves
Operador de som: Ju Ladeira
Gravação de áudio: João Marcelo Heinz / Othello
Fotografia: Clever Barbosa, Edson Paes e Marcelo Santos Braga
Teaser: Marcelo Gibson / Ghetto Filmes
Fotografia de arte: Jul Sousa
Preparação da arte / Fotografia: Synara Holanda
Arte e design gráfico: Edson Paes e Márcio Guth
Produção executiva: Diga Sim Produções
Direção de produção: Quero Bem Produções
Realização: Quero Bem Produções, Diga Sim Produções e Grupo Quadrante

Serviço:

Camille Claudel – Uma mulher
Temporada: 
12 de outubro a 4 de novembro.
Casa de Cultura Laura Alvim / Espaço Rogério Cardoso: Avenida Vieira Souto, 176 – Ipanema

 

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