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O Rinoceronte

Literatura por Renata Barcellos em 2019-02-02 08:28:49

Ontem, fui assistir à bela peça O Rinoceronte, de Ionesco [1909 – 1994 – pai do teatro do absurdo], no teatro Armando Costa, na Escola de teatro Martins Penna, a convite do meu amigo Tetsu Takita. A proposta de releitura deste texto considerado um dos melhores da época pelo diretor Ricardo Santos foi primoroso. É um denso, com várias falas fragmentadas... Elenco composto de 18 atores (boa atuação – sobretudo quem fazia os tiques) interpretando personagens como: dona de Casa, merceeira, Jean, Bérenger, garçonnete, merceeiro,  senhor idoso, lógico... e cadeiras penduradas.... A nudez da maioria ao longo da encenação não choca pela forma apresentada simbolizando a transformação em rinocerontes.

O texto de Ionesco narra a história de uma cidade pacata que se transforma completamente após a passagem de um rinoceronte por suas ruas. Enquanto a origem do animal é discutida entre os moradores, misteriosamente, se prolifera de maneira incontrolável, até que os cidadãos da cidade vão aos poucos se metamoforseando em rinocerontes. Nas entrelinhas, é símbolo de conformismo na qual a sociedade etá paralisada. A metamorfose sofrida pelos habitantes é uma analogia ao processo continuo de mediocrização que ela vem sofrendo há tempos, um fato que, nos dias atuais, vem se agravando. Esta peça foi escrita em 1959 e estreou em Paris no ano seguinte. Ionesco começou a escrever textos dramatúrgicos apenas na década de 50. O Rinoceronte foi responsável pela sua aceitação internacional como grande figura do teatro do absurdo, um conjunto de obras escritas ao longo de 30 anos, entre as décadas de 40 e 60 na Europa e nos Estados Unidos. Na trama, em três atos, os habitantes de uma pequena cidade do interior estão reunidos em um domingo no terraço de um café. Chegam Bérenger e seu amigo Jean, opostos em seu modo de vestirem-se e portarem-se, e, em meio à discussão dos dois e de conversas paralelas banais, a cena é invadida por um ruído estrondoso que faz o chão estremecer. São vistos um, ou dois – não se sabe ao certo -, rinocerontes que passam em disparada pelas ruas da cidade. Aos poucos são vistos mais rinocerontes. Os moradores da cidade foram contaminados por uma doença, a “rinocerontite”, que os transforma em rinocerontes e os faz até mesmo desejarem se tornar o animal.

O texto completa este ano 60 anos que foi escrito e é atual. Vale a pena ir para refletir sobre o que vem ocorrendo de forma cada vez mais grave. O Rinoceronte é uma excelente metáfora elaborada pelo pai do teatro do absurdo. Além disso, há o antítese, oxímoro por misturar doçura e ferocidade. Ionesco faz coexistir elementos aparentemente opostos. Vale dizer que os rinocerontes são animais fortes, agressivos, insensíveis, que causam tremores de terra e pavor entre os humanos. Também cabe destacar o isolamento e a solidão de Bérenger. Eles se contrapõem ao seu desejo de pertencimento a uma comunidade, expressa em sua paixão pela jovem com quem trabalha, Daisy. Outro elemento fundamental presente é a ironia. A transformação de seres humanos neste animal é um impactante símbolo de denúncia do conformismo, frieza e agressividade do homem moderno.

A peça é um excelente exercício de reflexão. Para pensarmos como aceitamos as atrocidades cometidas e não reagimos, não lutamos contra um sistema capitalista cruel e desumano. Somos engolidos pelos desmandos diários (de casa ao governo). Devemos dizer NÃO ao conformismo, a qualquer tipo de submissão. Devemos ser seres pensantes. Não se pode continuar como conformados seguindo passivamente a manada, mansos e anônimos, renunciando os seus direitos e deveres. Parabèns ao diretor e ao elenco!!!


Pensamentos de IONESCO:

 


Onde não existe humor, não existe humanidade. Onde não há humor, há um campo de concentração.” 

 

Devemos escrever para nós mesmos, é assim que poderemos chegar aos outros” 

Não é a resposta que nos ilumina, mas sim a pergunta.” 

Pensar contra o nosso tempo é um ato de heroísmo. Mas dizê-lo é um ato de loucura” 

O crítico deveria descrever e não prescrever.” 

 

Informações

De 30 de janeiro a 9 de fevereiro

De quarta a sábado

Às 20:00

Teatro Armando Costa

Martins Penna


Rua Vinte de abril, 14 - Centro - perto do Campo de Santana - RJ

 

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