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Tebas Land

Literatura por Renata Barcellos em 2019-04-27 08:43:52

Quando me disseram que “Tebas Land” era imperdível e eu não poderia deixar de assistir, não imaginei que fosse ser tão profundo e surpreendente. Saí extaseada com tudo. Enquanto professora da área de Letras, cada cena da peça é um deleite. O texto dramático propõe diversas reflexões sobre empatia, afeto paterno, abuso e violência familiar de forma poética. Conferindo assim ao roteiro um tom leve. É uma grande aula de Literatura e Filosofia. É importante destacar a presença de livros (clássicos da literatura mundial).

O espetáculo é uma grande narrativa interativa. Como se fosse uma aula na qual o professor apresenta cada cena utilizando recursos como quadro branco, projetor...Há um tom didático presente ao longo da história. Trata-se de uma peça híbrida (escrita pelo autor uruguaio  Sergio Blanco) por utilizar-se de outras linguagens commo: música (por exemplo, Quem é? De Agnaldo Timoteo, presente hoje na plateia. Estava emocionado e, ao final, declarou: “maravilhoso”e a 21 Sonata de Beethoven), romances, oraçção (Pai nosso em francês...) e fotografia... Sobre estas, cabe dizer que mesmo apresentando cenas do crime, de como matou o pai, as imagens impactantes não provocam reação de não aceitação pelo público. Todos assistem a elas como se fossem um perito, alguém mergulhado na história tentando as razões do  filho para cometer o crime.

O elenco é constituído por: Otto Jr., que busca con  o ator com quem contracena entregar características específicas de seus personagens para ajuda ao público entender quando estamos assistindo aos encontros entre escritor e parricida na quadra de basquete de um presídio. Robson Torinni tem um trabalho de construção de personagem complexo. Enquanto  Martín, assume uma postura “ressabiada”, por vezes ameaçadora, mas igualmente frágil. Sua interpretação de Martín lhe confere criar empatia com o personagem, privado do amor paterno e, mais do que isso, alvo de torturas físicas e psicológicas por parte de seu genitor.

Cabe ressaltar também a questão posta em cena a respeito do processo da escrita. De como é árdua a elaboração de uma roteiro. A exigência de pesquisa de campo por parte de Othon sobre um detento que cometeu  parricídio. E, neste, Tebas Land, pode-se depreender também metalinguagem (explicação do título, da temática parrecídio). Entre os recursos utilizados está a “gaiola” e as referências ao mito de Édipo, escrita por volta do ano 427 a.C.Édipo mata Laio, seu pai, sem saber quem era este, e MARTIN SANTOS mata o seu, sem nome, na peçaexatamente por saber muito bem quem ele era: um “monstro”, à interpretação freudiana e aos d’Os Irmãos Karamazov, de Dostoiévski.

Robson revela como foi o processo para a peça vir ao Brasil: “O Victor e eu lemos ‘Tebas Land’ e nos apaixonados de primeira. A gente sabia que a peça estava em cartaz em Buenos Aires, então nós fomos assistir e amamos ainda mais o texto. Eu fui atrás do autor, ele disse que tinham várias pessoas interessadas no texto aqui no Brasil e depois de muita troca de mensagens a gente conseguiu.

O roteirita Blanco acompanhou todo processo de ensaio para a escolha dos atores e no Brasil e, aqui, uma atenção especial com seu trabalho: “Ele teve um cuidado desde o começo em saber quem estaria envolvido no projeto. Buscou referências dos atores que iriam representar a peça, veio assistir ao ensaio aqui no Brasil, se emocionou e nos elogiou”, relatou Robson. A cena que mais gera comoção é a final na qual Othonvai se despetir de Robson, dá a ele um presente: In Ped, com obras literárias e músicas. Os dois se abaçam. E isso (o abaço) simboliza que, mesmo os brutos, criminosos, lá no fundo de sua alma ainda há amor ao próximo.

Por fim, “Tebas Land” já foi adaptada para mais de 12 países, como Inglaterra, Alemanha, Índia, Japão, Chile, Peru e Espanha. Hoje, no Brasil, está sendo muito bem apreciada pelo público e pela crítica. Venham asssistir a este espetáculo!!! Como disse Agnaldo Timóteo: “imperdível”. Ao final da sessão, o ator Robson se emociona ao revelar a presença do cantor cuja música foi tocada ao longo do espetáculo.

Parabéns ao Othon e ao Robson pela escolha do belo texto e interpretação. Que venham outros projetos!!!

Finalizo com um fragmento de Dostoiévski:

"Digo-lhe a meu respeito: sou um filho do século, filho da descrença e da dúvida, e o tenho sido até hoje (e sei) inclusive que o serei até a morte. Que suplícios terríveis me têm custado e custa até hoje esta sede de crer, que é tão mais forte em minha alma quanto mais numerosos são em mim os argumentos contrários".    (1854 – carta a N. D. Fonvízina).

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