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Beco

Literatura por Renata Barcellos em 2019-05-23 10:12:12
Beco é mais uma das propostas inovadoras da atualidade. Trata-se de um espetáculo híbrido: mescla literatura (as obras poéticas da artista Betina Kopp), performance, vídeo… A supervisão é do teatrólogo Amir Haddad e direção de Adressa Koetz. O solo é uma fusão de textos de autoria de Kopp com pano de fundo projeções multimídia, como cenário e medições da pulsação dela própria, dramaturgia e música eletrônica, a fim de conectar palavra, movimento e tecnologia. Para quem é do universo literário como ela, é uma bela experiência perceber novas possibilidades da linguagem literária.
Com supervisão do consagrado diretor Amir Haddad e direção de Adressa Koetz, o texto aborda questões da nossa contemporaneidade como a condição feminina e as forças da natureza. Kopp revela que fala "do coração, desse percurso que contrai e expande. Falo das minhas inquietações, angústias cotidianas, realizações, a autoanálise, carências, prazeres. É muito feminino". Há 10 anos interpreta sua própria poesia e também a de autores consagrados como Baudelaire pelos quatro cantos do mundo. Entre os poemas que estão no roteiro, ela destaca um dos mais recentes que escreveu, "Mulher cavala", transformado em um batidão para o espetáculo. "Ninguém segura mais as mulheres. Não tenho medo do enfrentamento. É dar a cara a tapa. A 'Mulher Cavala' siginifica o pé na porta, cavalgar mesmo. Ela quer amar, ser livre, leve e compreendida, mas também quer ser pega, é uma troca: dominar e ser dominada", explica Kopp.
Vale destacar que conheci Kopp em “Memórias de fogo”, um outro trabalho excelente. A partir desse espetáculo, minha percepção mudou totalmente. A experiência foi um divisor de águas em minha vida por diversos motivos. Um deles foi por ter me possibilitado conhecer outra vertente da literatura: a Poesia Visual, dentre outras.
Os jogos de palavras, as figuras de linguagem como a comparação: “veneno doce como o mel de abelha”, a referência aos sinais de pontuação “amo tanto as reticências, a vírgula é capaz de diferenciar assunto, caminho, eu sou contínua reticências... A escrita para ela ocorre quando algo explode. Como se um bicho carpinteiro dissesse: “me solte e me me liberte”. Define o ato de escrever como uma “foda”: solitário.
Há pouco mais de dez anos, mais precisamente em 2007, a atriz e poeta Betina Kopp criou um blog para escrever… para si própria. Chamava-se “Beco” e reunia poemas de sua autoria. A atriz Camila Amado leu e, quando terminou, deu o veredicto: “Você está pronta”. De lá para cá, os poemas foram reunidos em um livro e alguns deles compõem o roteiro da peça homônima ao blog http://becodebb.blogspot.com/
Com textos como:

Assim

Estou enlatada,
cheia de conservantes.
Embalada a vácuo,
vazia de naturalidade.
Sem as cores 
que me iluminavam,
fiquei opaca!
Restaram cinzas.
O brilho evaporou com o álcool,
o viço com a fumaça 
e eu fiquei assim.
Assim, assim.
Com o amor que passou
e a rejeição que ficou.
Com as máscaras encobrindo a solidão
e as farsas impedindo o desejo.

A surpresa está no final. Esta, não revelarei! Vá conferir!

Finalizo com um dos textos aludidos por ela:

Embriague-se – Baudelaire

É preciso estar sempre embriagado. Aí está: eis a única questão. Para não sentirem o fardo horrível do Tempo que verga e inclina para a terra, é preciso que se embriaguem sem descanso.
Com quê? Com vinho, poesia ou virtude, a escolher. Mas embriaguem-se.
E se, porventura, nos degraus de um palácio, sobre a relva verde de um fosso, na solidão morna do quarto, a embriaguez diminuir ou desaparecer quando você acordar, pergunte ao vento, à vaga, à estrela, ao pássaro, ao relógio, a tudo que flui, a tudo que geme, a tudo que gira, a tudo que canta, a tudo que fala, pergunte que horas são; e o vento, a vaga, a estrela, o pássaro, o relógio responderão: É hora de embriagar-se!
Para não serem os escravos martirizados do Tempo, embriaguem-se; embriaguem-se sem descanso. Com vinho, poesia ou virtude, a escolher.
Charles-Pierre Baudelaire (1821 – 1867) foi um poeta boémio, dandy, flâneur e teórico da arte francesa. É considerado um dos precursores do simbolismo e reconhecido internacionalmente como o fundador da tradição moderna em poesia.
Que é Betina Kopp?
É formada pela Casa de Artes de Laranjeiras (CAL). Atuou em novelas e programas da Globo, do Canal Brasil e da TV Futura. Participou como apresentadora do humorístico “Sensacionalista”, no Multishow. No teatro, atuou em “Diálogos com Lorca”, dirigida por Lu Grimaldi, “Vão Paraíso” e “Escola de Molières”, ambas dirigidas por Amir Haddad. Criou as performances “Corpinturadas”, “Poesia Que Para (PQP)”, “Poesia para Degustar” (em que coloca talheres na cabeça e oferece poesias ao público) e “Poiesis”. Também é co-fundadora do coletivo performático Voluntários da Pátria, liderado pelo músico Tico Santa Cruz, vocalista da banda Detonautas, que leva música e poesia para jovens de todo o país.
Enfim, Kopp nos faz pensar as diferentes linguagens e nos leva a refletir sobre suas múltiplas possibilidades. BECO é um misto de palavras e/em movimento constante. 
SERVIÇO
Teatro Candido Mendes:  Rua Joana Angélica 63, Ipanema
Terças, às 20h
Duração: 60 min

Até 28 de maio.

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