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O HÉTERO

Cultura por Renata Barcellos em 2019-05-28 05:49:56

 “O HÉTERO”, primeiro solo Zé Wendel, com direção de Alice Steinbruck, é autorreflexivo e performático (parabéns pelo preparo – show de movimentos). É um ato de coragem, um desnudar-se. Por quê? Neste, o ator aborda questões como autoaceitação, sexualidade, o papel do artista brasileiro na sociedade, o mercado profissional, entre outros, com humor e ironia (os valores socialmente impostos). Trata-se de um monólogo autobiográfico: “A necessidade de sobrevivência me levou a escrever este texto para resistir ao mal e existir como artista. Estava numa fase de inquietação interna, com poucos trabalhos e uma necessidade pungente de criar. Não queria contar com a sorte ou esperar por convites e quis dar conta do meu papel de ator de forma mais autônoma. Me joguei de cabeça”... “Eu precisava falar do mundo sob vários aspectos”, afirma Zé, integrante da excelente Cia. Omondé há 10 anos.

Dessa forma, é contada a história de Fulano de Tal, um artista nordestino sonhador que sai pelo mundo em busca de espaço profissional numa jornada de autoconhecimento e autoaceitação. Para isso, além de seus questionamentos (“Ser ou não ser, eis a questão” e “Que culpa tenho eu para tal castigo?”) e observações (conselho da mãe: “não importa o que eles dizem, não se torne alienado. Ande sempre de cabeça erguida”), leva consigo um vasto conhecimento de mundo. Principalmente quanto à pluralidade da cultura popular brasileira às influências midiáticas da televisão com suas telenovelas e programas de auditório. Do início ao fim, há diversas referências como à literatura: Odisseia de Homero, Alice no pais das maravilhas de Lewis Carroll, Dom Quixote de Miguel de Cervantes  e Vidas Secas de Graciliano Ramos; à música: Joelma do Calipso; à pintura: Salvador Dali; a lugares: Avenida Brasil, Copacabana, Le Boy... As intertextualidades: “Em terra de cego, quem tem olho é gay”.

“Em alguns momentos, o texto alude à literatura de cordel e, paralelamente, se vale da linguagem pop e de uma pequena dose de existencialismo filosófico. A peça não é apenas para entreter. Construímos um monólogo performático cheio de representatividade e com um dedo na ferida que convida à reflexão, pois discutimos a questão das minorias abordando estigmas e sendo um espelho da nossa sociedade atual. Falar sobre identidade e preconceito hoje é um ato político, uma quebra de tabu. Falo do direito de poder exercer minhas convicções, minha fala, meu timbre de voz, meu corpo”, declara Zé Wendell.

Segundo a  diretora da peça,  Alice Steinbruck, que se formou na UNI-RIO  há 14 anos em Artes Cênicas com o Wendel (ele  em interpretação e ela em direção) , para um monólogo “com vários personagens ter um ritmo adequado é preciso desapego e humildade na abordagem das narrativas, do tempo e do material humano que você tem. O Zé teve uma escuta fenomenal e se abriu para a abordagem quase psicanalítica que eu usei para desvelar este texto no corpo dele. Com muito rigor técnico nas seis horas diárias de ensaios, conversas profundas, repetições sem trégua e nenhuma procrastinação, chegamos ao resultado que poderá ser conferido no palco”.

Vale ressaltar uma breve explanação acerca do existencialismo filosófico. Trata-se de uma doutrina filosófica e um movimento intelectual surgido na Europa em meados do século XX, na França. Está pautada na existência metafísica, donde a liberdade é seu maior mote, refletida nas condições de existência do ser. Para os existencialistas, a liberdade de escolha é o elemento gerador, no qual ninguém e nem nada pode ser responsável pelo seu fracasso, a não ser, você mesmo. No texto, menciona um pensamento de Xuxa: “Tudo o que eu quiser, o cara lá de cima vai me dar”. Adorei!!!

 Sören Kierkegaard

 

Considerado o “Pai do Existencialismo”, Sören Kierkegaard (1813-1855) foi um filósofo dinamarquês. Fez parte da linha do existencialismo cristão, no qual defende, sobretudo, o livre-arbítrio e a irredutibilidade da existência humana. Da mesma maneira que outros existencialistas, ele focou na preocupação pelo indivíduo e pela responsabilidade pessoal. Segundo ele: “Ousar é perder o equilíbrio momentaneamente. Não ousar é perder-se.”

Um dos maiores representantes do existencialismo, Sartre (1905-1980) foi filósofo, escritor e crítico francês. Para ele, estamos condenados a ser livres: “Condenado porque não se criou a si próprio; e, no entanto, livre, porque uma vez lançado ao mundo, é responsável por tudo quanto fizer.”

Terminamos esta apreciação, com uma reflexão de Zé:

 “Infelizmente estamos retrocedendo no tempo e precisamos combater esse tipo de ideologia, que se diz não ideológica. Senti e ainda sinto isso na pele, mas chega de opressão! Acredito que as influências externas nos definem e muito, afinal, somos frutos do meio. Porque podem nos dizer como devemos ser? Que autoridade e que legitimidade possuem para condenar o outro ao inferno de suas próprias convicções? Enquanto  isso não for compreendido, estaremos fadados ao fracasso social. Obviamente nossas instituições contribuem para isso – a religião, a política, a família e até a educação das escolas estão contaminadas dessa mentira. É lamentável e cruel. Mas é real. Decidi encarar, botei minha verdade para jogo. Acredito que precisamos criar e produzir, pois é a única forma de fomentar e fortalecer nossa própria carreira. Então ou você cria, ou você morre. E eu decidi viver”, desabafa Zé Wendell.

Vale a pena conferir este solo performático de Zé Wendellll!

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SERVIÇO: 

sex a seg, 20h30. 

Classificação: 16 anos. De 25 de maio até 17 de junho. 

Teatro Café Pequeno – Avenida Ataulfo de Paiva, 269 – Leblon. RJ.

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