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ZAATARI - MEMÓRIAS DO LABIRINTO

Cultura por Renata Barcellos em 2019-06-02 09:40:18

ZAATARI - MEMÓRIAS DO LABIRINTO, co-produção Alemanha/Brasil, dirigido por Paschoal Samora, retrata um cenário político desumano, milhões de homens, mulheres e crianças em fuga almejam sobreviver, escapar do terror,  Estar em algum lugar onde  se sintam seguros por haver preocupação com os seres humanos.. Entre 2011 e 2018, a guerra civil na Síria já matou mais de 500 mil pessoas e exilou 5 milhões. É a pior crise de migração na história da humanidade, desde a Segunda Guerra.

No deserto de Mafrak, localizado na fronteira entre a Síria e a Jordânia, ZAATARI é um dos maiores campos de refugiados sírios do mundo, com mais de 80 mil habitantes (vivendo em abrigos de Container de metal ou madeira), onde uma nova cartografia é estabelecida: dividida em 12 setores. O campo tem em torno de 29 escolas, dois hospitais e 3.000 lojas e negócios informais. Milhares de famílias arriscam-se diariamente para chegar a este local, a fim de encontrar um abrigo no meio do caos de uma guerra civil cujo número de mortos já ultrapassou 400 mil pessoas.

Desde 2012. em quatro anos, Zaatari tornou-se a terceira cidade do país e o quinto maior centro em transações financeiras. O documentário aborda o lado humano e busca entender como milhões del refugiados tentam reconstruir suas vidas, superando os traumas da guerra. O filme registra quotidiano de personagens que se esforçam para manter vivas suas memórias de casa. Para isso, foi encontrada uma ótima solução: personagens cobrindo os olhos para os relatos. Segundo Samora revela que a questão era: “como fotografar a memória? Olhar para dentro da alma. O filme tenta acessar a memória através do olhar da pessoa de dentro de si. No meio da escuridão acessar o que há de melhor em nós”.

Mesmo abordando sérias questões geopolíticas, o filme não o faz de forma impactante, há entremeada na narrativa as Artes presente no quotidiano de refugiados como a fotografia “tudo o que quero, expresso pelas fotos. , o teatro “é algo esssencial, evoca a chama da esperança” e a pintura “branco causa depressão, afeta a alma, o espírito”. Elas são responsáveis pela esperança de vida, válvula de escape de uma realidade cruel. Para o diretor Paschoal Samora: o filme propõe “uma reflexão sobre exilio e liberdade no mundo contemporâneo a partir de uma matéria prima intangível. Afinal, como filmar as imagens da memória? Como falar de liberdade quando estamos privados dela?”. E complementa: “Apesar das perdas incalculáveis, da diáspora que os obriga a habitar um campo de refugiados no deserto, limitados por cercas, trincheiras e blindados que asseguram a ‘estabilidade’ do gigantesco campo, encontrei pessoas de uma luz extraordinária, que se reinventam todos os dias e se opõem com coragem ao trauma da guerra. Eles despertam em mim o sentimento de uma resistência silenciosa que se instaura, em sua legítima luta por territorialidade”.

Vale ressaltar a referência às Artes (pintura, fotografia e teatro) torna o texto híbrido. Isso é responsável por uma abordangem sutil  das temáticas abordadas (moradia, emprego, educação, controle de natalidade...). Para colaborar com esta perspectiva, também há o uso de recursos expressivos como: sinestesia: olfato “o aroma, sinto cheiro do meu país”e visão: “difícil enxergar pelos meus olhos”; metáforas: “os olhos são o espelho da alma”,“ a noite está nas mãos de Deus, “você é um urso polar”....

Dentre as várias questões abordadas, serão destacadas três: cor, jardim, expressão facial das personagens. Quanto a esta, o que mais tocou foram as personagens apresentam semblante alegre.. , muitas vezes, rindo (sobretudo as crianças). Não demonstram amargura e nem trissteza. Neste momento, percebe-se o poder de resiliência definida pelo a Real Academia Espanhola como a “capacidade de adaptação de um ser vivo diante de um agente perturbador ou estado ou situação adversa”. O destaque feito a respeito das cores e dos desemhos presentes nos conteineres a fim de resgatar a memória da terra natal é excelente para lembrar como o branco pode levar à depressão. Por isso, começam a ter cor (azul, verde...). Afinal, cor é vida. O mais intrigante é permitirem isso lá, uma vez que não há liberdade de expressão. Quem diz o que quer .... E o jardim e a história do personagem ultrapassaram toda a narrativa. As imagens do jardim e o regar das plantas simbolizam a esperança que deve ser “regada” todos os dias.

Por outro lado, há o tipo de moradia (conteineres) e a organização espacial do lugar em forma de labirinto cuja representação é de uma situação sem saída ou bastante complicada, bem como um percurso feito ao interior da psique ou da alma. Os refugiados vivem “encuralados em um beco sem saída”. Para se deslocarem, é preciso autorização. Entretanto, mesmo vivendo de forma improvisada e sem perspectiva de futuro, conseguem rir, brincar comos filhos .... Os personagens dão uma aula de exemplos de superação.

Cabe ressaltar também que ZAATARI - MEMÓRIAS DO LABIRINTO foi filmado na Jordânia. É uma coprodução internacional Grifa Filmes e Nós com Gebrueder Beetz Filmproduktion, Globo Filmes, Globo News, Canal Brasil, e os canais ZDF/Arte, da Alemanha. A produção foi dirigida por Paschoal Samora e tem argumento de Ana Cláudia Streva e Ricardo Vargas. A produção executiva é de Fernando Dias, Mauricio Dias, Ana Cláudia Streva e Christian Beetz. O filme tem trilha sonora de Diogo Poças e direção de fotografia de Thomas Keller. Em exibição no Rio de Janeiro, no Espaço Itaú de Cinema Botafogo, às 20 horas.

Após a exibição do filme no dia 2 de junho na sessão Clube do professor, na Estação Itaú de Botafogo, Paschoal Samora respondeu a diversas perguntas e terminou mencionando . Jorge Furtado, em Ilha das Flores: “Livre é o estado daquele que tem liberdade. Liberdade é uma palavra que o sonho humano alimenta, que não há ninguém que explique e ninguém que não entenda”. Vale a pena conferir!!!

Um pouco sobre Paschoal Samora

É diretor, produtor e roteirista de filmes, com especialização em documentários. Realizou "A Chave da Casa" em 2009, "Mar de Dentro" em 2008, "Diário de Naná" em 2006, "Rio de Fevereiro" em 2003, a série "Ao Sul da Paisagem" em 2001, entre outros.


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