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Os Analfabetos

Cultura por Renata Barcellos em 2019-06-17 09:48:17

Os Analfabetos” é um espetáculo reflexivo sobre questões inerentes ao ser humano e sua relação com o outro. A direção é do curitibano Adriano Petermann e o roteiro inédito é de Paula Goja. Para a sua elaboração, a autora inspirou-se em obras do cineasta sueco Ingmar Bergman, sobretudo nos filmes “Persona” e “Cenas de um casamento”, cujos temas abordados foram: separação, falta de inspiração para escrita, fuga da realidade, falta de sensibilidade, de olhar e ver o outro quem realmente é, padrões sociais... Todos propiciam um repensar acerca de fatos contemporâneos e graves como esses dois últimos mencionados. Um deles é a mola propulsora da peça relatado através da personagem que decide calar-se para fugir das pressões sociais. 
A peça tem como questão inicial um jantar promovido pelo ator Deco cuja motivação é festejar seu primeiro papel na televisão. Ele reúne amigos na casa de Mariana, uma famosa atriz famosa que, durante uma apresentação de “Vestido de noiva”, resolve calar-se perante o mundo. Não se sabe ao certo se ela está doente ou se, simplesmente, optou pelo silêncio. A sonhadora enfermeira Beth a acompanha em seu tratamento e, em paralelo, o casal Eva e Max, convidados para o evento, está prestes a assinar os papéis do divórcio. Outras personagens fazem parte da trama.
Dessa forma, com atuação adequada à proposta cênica, os atores Stella Mariss, Mariana Rosa, Paula Goja, Paulo Maia e Antonio Pina estão envoltos a um clima sombrio. O espetáculo inicia-se num tom fúnebre mas com uma dose de humor negro ao estilo Nelson Rodrigues com diálogos terminando em ritmo de samba como: “ -Você matou? – Matei! Prometo! ... Eu sou Rodrigues. Eu sou e ninguém vai me segurar”. O diretor Adriano Petermann criou um ambiente apropriado à densidade do texto envolto ao surrealismo, à metalinguagem (por tratar-se de uma peça que aborda a realização de uma outra e das definições realizadas) e às interferências Rodrigueanas (alusão ao texto Vestido de noiva”). Além da trilha sonora ser composta por canções como Explode coração de Gonzaguinha (Nascendo, rompendo, tomando / Rasgando, meu corpo e então eu / Chorando e sorrindo, sofrendo, adorando, gritando / Feito louca, alucinada e criança / Eu quero o meu amor se derramando) e post-punk e de adequadas à proposta cênica e à iluminação de Fernanda Mantovani e ao figurino com um quê de gótico de Maurren Miranda.
Quanto à motivação da autora nas obras do cineasta sueco Ingmar Bergman, especialmente, nos filmes “Persona” e “Cenas de um casamento”, para redigir o texto, pode-se perceber como Paula Goja bebeu dessa fonte pela essência reflexiva de pensamentos atemporais como “o mundo é hostil, meu cara”, “a vida é luta, fazer escolhas é necessário”, “amar é um eterno recomeçar”, “a realidade é diabólica”, “A vida engana em todos os aspectos”; metáfora: “cinema é uma prostituta”, “teatro é esposa, cinema é uma amante cara e exigente”; e o seguinte questionamento: Para de lamentar, de ser passivo! O que uns estão fazendo com os outros?”;  e a grande questão: a incapacidade de amar o seu semelhante.  Homem realiza ações complexas mas incapaz de lidar com emoções e fatos simples do quotidiano “Não conhecemos uma palavra sobre a alma” e “foi à lua mas dificuldades para atravessar a rua”.
Um pouco de Ingmar Bergman (1918 — 2007)
É um dos maiores cineastas da história. Sua produção foi extensa, mais de cinquenta filmes e roteiros – entre os anos de 1946 a 2003 - intercalados por uma série de trabalhos para televisão, sem contar peças de teatro. Bergman faz parte da geração de cineastas pós II Guerra Mundial, em ascensão, com seus filmes de narrativas mais complexas, explorando ao máximo a linguagem cinematográfica e histórias um pouco diferentes das que dominavam as telas do mundo - com exceções, brilhantes, logicamente - histórias que fugiam das conclusões previsíveis e finais palatáveis. É neste período que surgem o neorrealismo italiano, a Nouvelle Vague, o cinema novo, entre outros movimentos.
Bergman tem como característica temáticas delicadas e de forte carga existencial: a solidão, a religião (resultado de sua criação religiosa), a morte, o erotismo com toda sua violência e impotência, a racionalidade mesclada nos mais diversos absurdos.
Em Persona (1966), Bergman trabalha questões existenciais, a metáfora do cinema e do teatro e a própria realidade por meio de cenas de puro simbolismo. Os tons cinza ajudam a criar a atmosfera de frieza e isolamento das personagens. Já em “Cenas de um casamento”, contempla a temática da separação e troca por uma mulher mais jovem.
O que mais dizer sobre um texto rico em inferências e reflexivo? Vale a pena conferir e pensar nos temas tratados, principalmente no que se refere a OLHAR e VER o OUTRO!!! Parabéns Paula Goja e todo elenco!!

SERVIÇO

Local: CAIXA Cultural Rio de Janeiro – Teatro de Arena
Endereço: Av. Almirante Barroso, 25 – Centro (Metrô e VLT: Estação Carioca)
Telefone: (21) 3980-3815
Lotação: 176 lugares (mais 4 para cadeirantes)
Datas: 7 a 23 de junho de 2019 (de sexta a domingo)
Horários: 19h

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