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A menina prodígio de 51 anos na visão de Márcio Malta

Cultura por Dinorá Couto Cançado em 2019-09-07 09:16:36

"Espetáculo “GUERRILHEIRAS OU PARA A TERRA NÃO HÁ DESAPARECIDOS", mostra que não há obstáculos entre a arte e a deficiência visual

Brasília, 05 de setembro de 2019. Era uma quinta-feira como outro qualquer, mas para Maria Epifânia Souza Santana, mulher forte e guerreira de 51 anos, deficiente visual congênita e dotada de vários dons era dia de expectativa e de muitas emoções. Pouco antes do anoitecer Epifania se preparava para uma rotina quase que um ritual; colocou um vestido floral de estampa vermelha, um chinelo baixo, um leve perfume e, logo após, pegou seu bastão e sua gaita e seguiu rumo à Biblioteca Braille Dorina Nowill, a biblioteca pública com obras voltadas para o atendimento de deficientes visuais. Há tanto livros em Braille, quanto obras gravadas em fitas e CDs. O acervo chega a 3.000 publicações. "A biblioteca ainda promove cursos de alfabetização Braille, oficinas educacionais/culturais e jornadas literárias”, ressalta a fundadora e voluntária Dinorá Couto Cançado.
Então que ela chega e passa por mim despercebida, sem saber que iríamos conversar por horas e horas. Pois bem, os amigos que lá estavam cumprimentaram “Epifânia” e foi aquela troca de sorrisos entre eles. Naquele momento de saudações fomos interrompidos por Leonna Fontes, coordenadora da biblioteca que organizava a ida dos alunos com diversos níveis de deficiência visual.
Com alegria fomos convidados a assistir ao espetáculo teatral "Guerrilheiras ou para terra não há desaparecidos", que foi apresentada no Teatro dos Bancários, na 314/315 Sul, em Brasília, na quinta-feira (05/09). Satisfeita e alegre com todos, Leonna complementa: “Para facilitar o transporte das pessoas com deficiência visual, conseguiram alugar um carro e o transporte estará disponível apenas para hoje (05/09), mas o espetáculo terá apresentação com audiodescrição também na sexta-feira! Vale lembrar que os ingressos para vocês e os acompanhantes são inteiramente gratuitos”.
No local estava “Eu” para realizar a cobertura do evento, à aluna Epifânia e outros 6 alunos com deficiência visual, além de dois voluntários e o motorista. Todos seguiram direção ao estacionamento da biblioteca sentido a uma van que aguardavam. Era 19hs quando o veículo seguiu em direção ao Teatro dos Bancários. 
Nesse momento, meu coração transbordou de satisfação. Foi quando me apresentei a todos que estavam na Van e quando iniciei um bate papo leve e descontraído com Epifânia. Ela, apesar de sorridente e tagarela com os amigos da biblioteca, se mostrou, aparentemente, tímida, mas logo, logo se soltou.
“Estou muito ansiosa. Muitos, aqui, como eu, já foram em sessões de Cinema com audiodescrição, mas para o teatro é minha primeira vez! É justamente para suprir as necessidades das pessoas com deficiência visual que a audiodescrição entra em cena e essa é minha maior ansiedade, ou seja, utilizar da tecnologia a favor de novas experiências”, exclama Epifânia. 
Logo após mergulhamos por diversos outros assuntos e descobrir que Epifânia mora no centro de Taguatinga, têm três cachorros e um calopsita, toca diversos instrumentos desde a sua gaita, teclado, instrumentos de corda e realizar leitura impecável em Braille.... No meio do percurso até o teatro, Epifânia pega sua gaita e surpreende a todos! De maneira suave e com muita precisão toca à música “Aleluia”.
“Pai eu quero te amar, tocar o teu coração
E me derramar aos teus pés
Mais perto eu quero estar Senhor, e te adorar com tudo que eu sou, e te render glória e aleluia. Aleluia, Aleluia, Aleluia, Aleluia”

Agora sempre que me lembro daquele momento de paz, onde todos silenciaram por alguns minutos e ao término exclamamos em aplausos e elogios. 
Chegamos ao teatro nostálgicos e deslumbrados com a apresentação da menina prodígio de 51 anos. Desembarcamos e logo fomos recepcionados pela produção da peça, fomos equipados com acessórios que compõe a audiodescrição e fomos os primeiros a sermos alocados em nossos assaentos.

A peça 
“GUERRILHEIRAS OU PARA A TERRA NÃO HÁ DESAPARECIDOS", com direção de Georgette Fadel e roteiro de Wagner Caruso. Foi criada a partir do testemunho do rio Araguaia e da história de 12 mulheres que lutaram e morreram em um dos mais importantes e violentos conflitos armados da ditadura civil militar brasileira, a Guerrilha do Araguaia. Ocorrida entre os estados do Pará e Tocantins, na floresta amazônica, entre abril de 1972 e janeiro de 1975, a Guerrilha do Araguaia reuniu cerca de 70 pessoas, sendo 17 mulheres, que saíram de diversas cidades do país para participar do movimento que pretendia derrubar a ditadura e tomar o poder cercando a cidade pelo campo. Por meio de um diálogo entre a ficção e o documentário, “GUERRILHEIRAS OU PARA A TERRA NÃO HÁ DESAPARECIDOS” é um poema cênico criado a partir da história dessas mulheres, de sua luta e das memórias do que elas viveram e deixaram naquela região.

De acordo com a atriz e pesquisadora do projeto, Gabriela Carneiro da Cunha, o espetáculo retrata uma história pela democracia, pela liberdade em todas as esferas e é um assunto muito factual. 
“De contra partida tivemos a preocupação e delicadeza da audiodescrição, esse recurso de acessibilidade que amplia o entendimento das pessoas com deficiência visual em eventos culturais e ao vivo, como a essa peça de teatro, programas de TV, exposições, mostras, musicais, óperas, desfiles e espetáculos de dança; eventos turísticos, esportivos, pedagógicos e científicos tais como aulas, seminários, congressos, palestras, feiras e outros, por meio de informação sonora”. E ressalta “É uma atividade de mediação linguística, uma modalidade de tradução intersemiótica, que transforma o visual em verbal, abrindo possibilidades maiores de acesso à cultura e à informação, contribuindo para a inclusão cultural, social para diferentes públicos e classes. Além das pessoas com deficiência visual, a audiodescrição amplia também o entendimento da sociedade num todo”.
De repente as luzes se acenderam e os atores entraram em cena e iniciam a narrativa sofrida, de dor e morte a respeito dessas 12 mulheres que foram engolidas por uma época que regia o regime militar. O texto é contemporâneo e mescla citações reais com ficção acompanhado de imagens é um telão, jogos de luzes e a presença de lonas; azuis, vermelha, branca e verde que tem seus significados ao decorrer das aproximadas duas horas de apresentação. 
Sentei do lado de Epifania e observava cada movimento, cada reação afim de entender suas emoções ao fim do espetáculo, então que ao finalizar, pego em sua mão e pergunto: “Então, qual foi sua experiência com o teatro por meio  da audiodescrição? Ainda emocionada com todo espetáculo e atuação das atrizes percebi que as mesmas emoções sentidas foram as dela...
Quando se assiste a uma peça de teatro como esta, pode-se referir àquela velha e batida frase: “Uma imagem para ou em movimento vale mais do que mil palavras”. Sem a descrição dessa imagem ou desse personagem a gente pode perder essas mil palavras. E eu acho que essa frase descreve tudo que “eu” ganhei com a audiodescrição nesta noite maravilhosa – resumiu Maria Epifânia.
O espetáculo “GUERRILHEIRAS OU PARA TERRA NÃO HÁ DESAPARECIDOS”, é apresentado pelo Ministério da Cidadania e Petrobrás com produção de ARUAC Filmes e Corpo Rastreado, com audiodescrição VER COM PALAVRAS. Patrocínio Petrobrás. Realização Governo Federal.

Serviço:
Datas: 05 e 06 de setembro (quinta e sexta-feira). 
Horário: 20:30 horas.
Local: Teatro dos Bancários.
Endereço: EQS 314/315, Bloca A, Asa Sul, Brasília, DF.
Classificação indicativa: 14 anos.
Audiodescrição: VER COM PALAVRAS.
Roteiro: Wagner Caruso.
Narração: Tabuh Tavares
Consultoria: Cristiana Cerchiari.
Revisão: Lívia Motta.

Matéria: Jornalista Cultural  em sua estreia como Voluntário na BiblioBraille –  Márcio Malta"

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